domingo, 8 de fevereiro de 2009

Dança da chuva.

Lá se vão diversos anos da minha vida a olhar para os céus de São Paulo, e lá se vão outros tantos mais a frequentar o Pacaembu e a presenciar fiascos monstruosos diante da perigosíssima Portuguesa de Desportos. A lógica e o senso comum, dirão, adicionando um 'portanto', devem impelir-me centrífugos de um jogo desses, sobretudo em dias de chuva. Mas como bom corinthiano sou - e o bom corinthiano desafia lógica, senso comum e demais processos pavlovianos - olhei para o céu escuro e, de tabela do Paulistão em mãos, ignorei aziagos vaticínios, mandei os portantos às favas e comprei meu ticket to ride.

E claro, embarquei numa bad trip: a Burra, como o time microscópico que sempre foi, surgiu num ferrolho hostil de dez homens na defesa; o Corinthians, como o time 'em formação' que sempre vai ser, nadou contra a maré de zagueiros e faltas sem jamais vencer a cobarde barreira. Por fim terminamos a tarde ingrata nos afogando na tormenta que por duas horas fustigou a cidade e aumentou nosso índice pluviométrico em várias grandezas: das numeradas, não podíamos ver as arquibancadas, e pouco divisávamos do gramado; apenas lampejos dos refletores nas inúmeras poças que freavam bola, jogadores e jogo. 

Mas quem de fato parou o jogo, investido da devida autoridade, foi o senhor árbitro. Concluiu que o prosseguimento era impossível, ordenou que se desligassem refletores e placar e fez com que o locutor anunciasse através do sistema de som do estádio que "a Secretaria Municipal de Espostes, Lazer e Recreação e a administração do Estádio Paulo Machado de Carvalho 'Pacaembu' informam que o gramado se encontra sem condições de jogo, e por ordens do senhor juiz, a partida está suspensa até data posterior a ser remarcada". Entendi isso como um "cai fora, macacada, que acabou a banana", amealhei meus trapos e fui-me.

Juliana, que brava e heroicamente me acompanhou nessa empreitada, ficou tão surpresa quanto eu quando soube que a partida foi reiniciada hora e meia após nossa saída. A parte nada surpreendente reside no fato da Portuguesa ter aberto o placar e o Corinthians ter finalmente arrancado um empate histórico antes do final, o que é apenas um detalhe - não importa quantas cacetadas tomemos de Juventus ou Portuguesa, não importam as intempéries torrenciais nem o descaso acintoso da FPF com o consumidor que paga cem reais num ingresso: meu time joga? Vou lá.

Explica pra eles, Tupã.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Vendo lote na lua.

Ou melhor, vendia. Assim como outros produtos de raríssima ocorrência e grandíssima utilidade, o lote na lua foi retirado do rol de anúncios do Mercado Livre por ser considerado 'carente de seriedade', sic. Tudo começou numa tarde em que precisava me manter ocupado no trabalho, e então, inspirado em alguns anunciantes sérios que conheço, resolvi acessar o domínio e vender minha alma. Registrei-me com alguns dados falsos (o endereço do Primeiro-Ministro britânico, por exemplo) e, sob o auspicioso título 'alma usada - único dono', iniciei os bids em um real. Mandei o link por email para algumas pessoas; estas devem tê-lo passado adiante e, ao fim do dia, trezentas outras almas já haviam visitado minha oferta. Dia seguinte, quando o portal finalmente meteu-me o pé aos fundilhos, meu espírito imortal atingira a bagatela de R$ 560.00.

A mesma sorte não tiveram meus outros anúncios, todos pontuados por descrições detalhadas. Os ovos de dinossauro, que como lá expliquei são chocáveis em chocadeiras comuns de granja ou mesmo por galináceos adestrados, não passaram de dois reais. O ofertante, atrevidíssimo, ainda mandou uma mensagem a avisar que pretendia comê-los numa omeleta. O chifre de unicórnio - outrora pertencente ao lendário Ventania e dele retirado através de rituais druídicos momentos antes de sua transubstanciação - suscitou pouquíssimo interesse. Disto tudo depreendi, cartesianamente, que o Mercado Livre é frequentado por brutos ignaros e não-lapidados, que são absolutamente incapazes de apreciar por exemplo as nuances biológicas das esculturas orgânicas do genial finlandês Jäärnö Püüväästääinen - que, é claro, eu também pus à venda.

Posh boys can't play.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Dia de branco.

Perguntou-me então o rapagote de avental, numa manhã quente da semana passada: ‘oi, será que dá para você consertar o ar-condicionado da salinha’? Macérrimo, quase esmaecido, de voz finíssima e sotaque provavelmente nórdico, deve ter lá seus vinte e cinco anos de idade, contra quinze na aparência e uns cinco na cabeça. Não obstante, em seu bolso já se estampa o arrogante DR a capitular seu epíteto, irrelevante. Restava-me apenas replicar, o que fiz prontamente. ‘O quê? Ar-condicionado? Salinha? Conserte você mesmo, oras!'

Horas mais tarde, após o almoço, vieram-me duas auxiliares de enfermagem relatar que o tal doutor (o nome realmente me foge, de tão térreo) ficou horrorizado com minha empáfia enquanto subalterno, e pôs-se a reclamar aos quatro ventos: onde já se viu; ‘conserte você mesmo?!’ Pois quem quis ouvir ficou sabendo da antipatia, da modorra e da inutilidade daquele serviçal alto, loiro e de sotaque italiano. Contrapuseram-lhe a atroz realidade dos centímetros e dos pigmentos: os dois rapazes da manutenção aqui empregados são baixotes e mulatinhos. Ao me descrever, reconheceram-me, e disseram-lhe tratar-se do doutor Fred, médico regulador.

Após muito resfolegar em paroxismos de asmático, respondi-lhes como sempre que doutor é quem defende doutorado, e me pus a refletir - o quiproquó não se deveu ao meu tênis, à minha calça jeans, à minha camiseta, às costeletas, à barba mal-feita ou às tatuagens. Foi o jaleco: qualquer pessoa sem este ou sem roupa branca nã
o é reconhecido como self pela classe em questão. Recuso-me terminantemente a vesti-los, pois se o hábito faz o monge, não faz o médico. E sinto-me jazer solitário na convicção de que somos forjados durante seis anos de trabalho sério numa faculdade idem, e não numa visita à lojinha de aventais.

Ademais, indumentária branca cai bem em marujos, quituteiras, manicuras e charcuteiros - não em mim, o rapaz da manutenção.

A top model of misbehaviour.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Idiota dos outros.

'Um idiota em inglês é bem melhor do que eu e vocês', cantou Branco Mello, meio que totalmente ignaro ao fato de que um idiota em russo é bem melhor do que eu, do que vocês e do que ele próprio. Refiro-me pois a alguns vídeos que achei no YouTube ao digitar palavras-chave 'idiot' e 'Dostoevsky'. Finalmente completa a exaustiva leitura do romance homônimo, resolvi aventurar-me net afora às catas de versões encenadas. Encontrei algumas, mas chamou-me a atenção esta a seguir. Para quem leu o livro e - como eu - é totalmente alienígena ao idioma em questão, a compreensão das palavras então se torna absolutamente desnecessária.

Isto porque, da caracterização das personagens à cenografia, descontados os excessos angulares que o diretor provavelmente herdou dos soviéticos, tudo parece saltar das páginas
para a tela. As atuações; sobretudo o papel de Kniaz Myshkin, encenado pelo (por nós) desconhecido Yevgenj Mironov, parecem perfeitas. Resta apenas esperar pela versão integral e legendada quando - e se - esta chegar ao ocidente. Mas o que mais me chamou a atenção foi um dos descritores que apareciam em vários vídeos relacionados à mesma obra - телефильмe. Isso mesmo; telefilme, em cirílico: trata-se de uma produção para a tevê.

No fim do dia, fica a pergunta: que é mais idiota: o russo epilético ou eu, você e Branco Mello, que ao ligarmos os televisores nos deparamos não com Myshkin, Rogozhin ou Dostoevsky, mas com Malhação, BigBother e Wolf Maya???


- Mãe, eles comem estrogonofe??

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dois mil e oito...

... o ano em que fizemos contato.


Barak & Prinz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Oligofrenia fede.

Minha ausência recente está mal e porcamente justificada num novo vício, um tanto debilóide e recém-adquirido: um joguinho desenvolvido exclusivamente para PlayStation portátil chamado Patapon. Nele, comandamos um exército de pequenos seres dotados de braços, pernas e globo ocular. Conforme se quer que a tropa avance, regrida, ataque, defenda; dá-se o comando, como era de se esperar. O toque genial jaz no modus facendi: não há botão para 'atirar', 'pular' ou 'agachar'; cada um dos quatro botões à direita - identificados por um quadrado, um círculo, um triângulo e um xis - faz soar um tambor de guerra, e a cada batuque corresponde uma reação.

No começo, é divertido: leva-se um certo tempo até a aquisição plena do groove necessário ao desbravamento de algumas etapas, sobretudo aquelas com overdubs rítmicos que nos forçam a errar o tempo e lançar nossos soldadinhos-olho à morte certa. Nem mesmo um sólido tirocínio musical às custas de infância perdida nos solfejos do guia rítmico Pozzoli nos salva do sonoro vexame nas primeiras incursões. Uma vez vencido o desafio, entra e cena o aspecto doentio da empreitada: é simplesmente impossível parar de batucar, inda mais na plataforma em questão, cujo uso é otimizado por fones de ouvido. No intervalo, a trilha sonora tem pipeband e didgeridoos.

De modo que, quando estou jogando, devo mesmo parecer um débil-mental, um autista, um Asperger; absorto que fico naquele compasso complexo de minúsculos ciclopes espartanos a batalhar no circuito fechado da minha mente, da minha telinha e de meus Xtra-bass headphones. E quando não jogo, epileticamente me contorço e refaço as batucadas no íntimo do meu cérebro, ansioso e esperando pela próxima dose desta que é a mais bizarra, perigosa e insidiosa designer drug que jamais encontrei neste trinta anos de perdições e investigações químicas.


- Is it in my head ?

sábado, 25 de outubro de 2008

Brinquedo do cão.

Duas pediatras conversavam animadíssimas na sala dos médicos enquanto eu tentava - sem sucesso - usufruir da diversão egoísta proporcionada pelo PlayStation portátil. Era-me impossível ouvir o que se passava no joguinho, pois o volume do falatório delas ganhava fácil dos meus fones de ouvido. Ora, posto que obstruiram meu lazer e entraram em meus ouvidos à revelia, achei-me no direito de intervir em seu enfadonho e desinteressante colóquio. Debatiam a respeito de quais brinquedos eram mais eficazes para controlar os ânimos de seus pequenos pacientes: uma gostava de blocos de construir, outra, de massa de modelar. Então intervim, 'vocês conhecem um brinquedinho chamado Rivotril? Funciona que é uma beleza.'

Pela maneira como me olharam, quietas e sem rir de meu hilário chiste, percebi mais uma vez que o desafeto a fluir entre mim e a classe médica é real, imediato e recíproco.



The Fomm Centre for Infancy and Youth Care.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Confira comigo no replay.

Muito se me reclamou a respeito da foto aqui publicada. Não pela foto em si, mas pelo fato de mencionar no texto os dois filhos de Francisco e haver, na imagem, mostrado apenas um deles. Fi-lo por vários motivos de ordem prática - Prinz Myshkin é bem mais claro e quieto que seu irmão Kunta Kinte, o que o torna um alvo fácil para lentes expertas ou amadoras, como as minhas próprias. Precisei pois de certa produção; de certo mise-en-scène para retratar o pequeno, mas finalmente (acho que) consegui.


Boy da cara preta.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cego em tiroteio.

Lembram-se daquela ex-prefeita que fez carreira como sexóloga, inclusive em programas televisivos, a ventilar por vinte anos idéias como contracepção e liberdade sexual? Lembram-se da ex-prefeita que se elegeu por um partido de esquerda e que se notabilizou por lutar contra a discriminação das minorias, inclusive a usurpar idéias de outrem e tornar 'sua' a parada do orgulho gay? Pois é; a supracitada e desagradável criatura desceu do arco-íris para desesperadamente tentar ganhar votos com uma homofobia patética, mal e porcamente travestida de rixa partidária.

Findos seus argumentos e suas chances, e ante os fatos nus, crus e inelutáveis de que seu mandato foi uma orgia fiscal e administrativa, a água bateu-lhe na bunda e resolveu atacar uma suposta, possível e aliás muito provável homossexualidade do rival: 'você sabe mesmo que é o Kassab? Sabe de onde ele veio? (...) É casado? Tem filhos?'. Quer nos fazer crer que ataca o PFL (ou DEM, ou whatever), mas fica no fundo a cantiga, 'será que ele é, será que ele é...' É o comportamento que esperaríamos talvez das Senhoras de Santana, não de uma psicóloga pretensamente progressista.

Juliana calcula que o massacre será tão grande que já cogita - novamente - votar em branco. Prefiro não arriscar, e reelegerei este homem; gay ou não, PFL ou não. Como da mesma maneira votaria em Adolf Hitler, Saddam Hussein ou Satanás, fosse qualquer um destes para um segundo turno frente à Dona Marta, a valquíria escarlate, e seu séquito de cavaleiros mal-barbeados, mal-vestidos e mal-intencionados.

Pois como eles mesmos sempre disseram, chegou minha vez de repetir - si hay PT, soy contra.

- Que gatinho aquele fotógrafo!!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os oito gatinhos.

A gata confusa e grávida agora é confusa e puérpera: subtraimos um barrigão muito grande de uma gata muito pequena e o resultado foram três minúsculas larvas que miavam. A ultrassonografia previu com correção, e do ventre inflado da Pipii eclodiram há três semanas dois machos e uma fêmea, que não tinham cara de gato, rabo de gato ou mesmo olho de gato - mas miavam. Tampouco engatinhavam; apenas se contorciam em espasmos de serpente, locomovendo-se erraticamente como toupeiras aflitas. E miavam. Sua única atividade diária - além de miar - era mamar, com agonia e êxtase, como se não houvesse amanhã.

Mas amanhã havia, e pouco após o alpha desses três bichinhos, veio o omega de um deles: encontrei a fêmea desfalecida, aliás, falecida; ceifada de nós por forças ocultas aos quatro dias de vida, sem mesmo abrir os olhos, ver a luz ou ganhar um nome. Não sabemos se tinha algum defeito congênito, o que é bem provável, e já vinhamos estranhando o fato de toda a ninhada haver nascido viva - morre-se muito neste mundo animal. Tratamos logo em seguida de arrumar rapidamente nomes para os sobreviventes e fotografá-los, talvez numa crença ancestral e primitiva de que suas imagens e invocações os prendam entre nós.

Seus catitos nomes, nada originais, foram fáceis de dar. O menorzinho, um tabby cinza e preto que é o pai quando filhote, cuspido e escarrado, chamamos de Prinz, num híbrido de Pipii e Franz. O maiorzinho é uma miniatura da mãe: a mesma cara confusa, os mesmos olhos azuis (o esquerdo mais fechado que o direito) e a mesma pelagem que já se anuncia longa. Só a cor dos tais pelos é diferente, e eles são negros como a asa da graúna. Daí veio seu nome, Kunta - de Kunta Kinte - dado que Juliana vetou Edson, em
homenagem (injusta, concordei) ao terceiro melhor boleiro da história, o Arantes do Nascimento.

De modo que será tarefa hercúlea doá-los, o que se programou para tão logo se dê o desmame. Não irão longe, contudo: minha piccola sposella os prometeu a sua tia, a sra. Kaufman, e poderemos visitá-los à exaustão. Mas quando olho a planta do nosso apartamento, atualmente em reforma, e conto seus cento-e-cacetada metros quadrados, calculo que eles caberiam bem lá; dois gatinhos a mais onde já moram seis gatões e um jabuti não pesariam tanto assim. Eis-me então com ganas de desprometê-los, adotá-los, castrá-los e baixar um ponto final: oito é o limite.

Se bem que oito, quando deita, é infinito.



Князь Лев Николаевич Мышкин.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Chicken feet.

Por motivos alheios à minha vontade e à minha competência, não escrevi grandes coisas neste espaço durante o mês de setembro. Aliás, em verdade, não escrevi nada, dedicado que estava (estou) à reforma de minha mansarda e a felinos obstétricos ou neonatos. Tal omissão involuntária impediu que exercesse aqui, com timing propício, um de meus passatempos mais sagrados: falar mal do petê. Ou, com maior propriedade - falar do petê, simples e imparcialmente, que o mal se sobrevém.

Mas ainda é tempo. Após o resultado de ontem, no entanto, não creio que devamos mais nos preocupar com a Morta Suplicy nem levá-la a sério. Portanto, limitar-me-ei a escrever algo que, caso ela ouvisse, causar-lhe ia muito mais desgosto e assombro que todos os palavrões do mundo somados ou comentários concernentes à sua incapacidade administrativa. Foi algo que percebi hoje, ao pegar aqueles tablóides noticiosos que são distribuídos gratuitamente nos semáforos de São Paulo -

"Dona Morta, a senhora está um caco!"

Copypasted do PubliMetro, 06.out.2008.

domingo, 5 de outubro de 2008

O aerovoto.

Nenhum deles, qualquer que seja, fará nada por mim, e a maioria encontrará meios inéditos para me prejudicar - uns mais, outros menos. Refiro-me sem dúvida a esses animais que pretendem nos governar, os candidatos a prefeito de São Paulo. É nesse clima participativo de cidadania e otimismo que saio de casa na manhã deste domingo, para cumprir meu direito sagrado e democrático ao sufrágio. Já cansei (ou não) de dizer que me parece tão estupidamente ditatorial obrigar uma pessoa a votar como impedi-la de; então lá vou eu, nada livre e sem arbítrio qualquer, premido pela compulsoriedade a exercer meus direitos.

Paradoxalmente (ou não), se o pleito fosse facultativo, eu votaria com prazer. Não se trata de uma atitude deliberadamente do contra, mas de uma simples aritmética: a parcela imunda e zoológica da população que de fato escolhe os dirigentes sem no entanto saber o que está fazendo certamente se absteria, ou alguém acredita que iriam preferir enfrentar filas diante das urnas a encher suas Kombis azuis de quitutes e parentes para ir farofar em Santos? Assim, talvez, o voto de alguém que prescinda de quirodáctilos para contar até dez faria alguma diferença, o que obvia e infelizmente não ocorre no sistema atual.

Assim sendo, e firme em minha convicção original de que - repito, com perdão à redundância - nenhum deles fará nada por mim, decidi entregar meu voto àquele que já fez algo por mim, no dado momento em que estiver diante da 'urna'. Ou seja, aquele que mais me divertiu durante o hilário eleitoral gratuito terá seu número de legenda por mim carregado, seguido do infame confirma. Este ano, claro; meu bobo da corte foi o Levy Fidelix: eis-me então mandando meus direitos pelos ares, e votando no Homem do Aerotrem.


Agora, sim!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O último círculo.

Eu mesmo demorei quase um mês a descobrir, e quando o fiz, pesquisei retrospectivamente os sites de notícia e confesso, fiquei desapontado – pouco ou nada se falou do epílogo sofrido em Moscou pelo escritor Aleksandr Solzhenitsyn, no começo do mês de agosto. A imprensa nacional nem notou, ocupadíssima que estava em reportar as peripécias dos nossos ginastas a castigar com suas nádegas torneadas o chão dos ginásios pequineses. No âmbito global, além das olimpífias, as media muito noticiaram a respeito da desinteligência Geórgia e da Rússia, e agiram como se ignorassem que a causa do conflito não é russa, como fazem crer, mas soviética.

E poucos nomes são ao mesmo tempo tão soviéticos e emblemáticos como Solzhenitsyn. Ainda jovem, enquanto soldado do Rotfront na Segunda Guerra, enviou uma carta com comentários infelizes a respeito do Pai de Todos, Yosif Stalin. Foi pronta e devidamente apreendido, interditado e engaiolado. Mandaram-no então para diversos campos de trabalhos forçados, dos quais emergiu apenas uma década mais tarde. Sobreviveu aos campos e a um tumor, e finalmente em 1974, após uma daquelas periódicas ondas de perseguição aos opositores, foi forçado a exilar-se no Ocidente – da Alemanha aos EUA, onde permaneceu por dezoito anos, sem nem aprender a falar inglês.

Deu então a derradeira mostra do seu caráter: quando se esperava que um ex-prisioneiro que havia sido torturado pelo regime soviético abrisse o berreiro contra sua pátria e abraçasse o modo de vida Western, Solzhenitsyn fez exatamente o contrário, e meteu o pau na sociedade que o acolhia, acusando os americanos de ‘falta de hombridade’. Ridicularizou a derrota ianque no Vietnam e detestava o assédio da imprensa, que numa era pré-paparazzi ele rotulava como ‘enxeridos’. E o mais surpreendente; como ex-condenado de Stalin, criticava o sistema judiciário americano por ser ‘legalista demais’, ou seja, dá-se muito espaço e extendem-se muitas leniências aos réus americanos.


Finda a guerra fria e com ela, a União Soviética, Solzhenitsyn perdeu sua importância, ao menos no entendimento (agora comum) de ocidentais e orientais. Procediam como se o homem que popularizou os conceitos de zek, sharashka e GULAG fosse necessário como a 'consciência da União Soviética', termo que lhe cunharam em seus anos de dissidência, mas fosse totalmente inútil no papel de 'consciência da nova Rússia'. O autor de 'Ivan Denísovitch', 'O Primeiro Círculo' e 'Agosto, 1914' - para citar os que eu li - virou peça de museu e finalmente encontrou seu epílogo, pondo fim a uma vida longa e dura, longa e dura como seus livros.


E a caravana passa.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Três filhos de Francisco.

Pipii começou a engordar, a olhos vistos – consideramos isto um excelente sinal no pós-operatório de uma cirurgia tão complicada, numa gatinha tão pequena, que inspirou tantos medos e tantos cuidados em pediatras e familiares. Comia e dormia, dormia e comia como se imitasse a diária e duríssima rotina dos porteiros do nosso prédio, e reiterasse a teoria de que ‘dormir dá fome, comer dá sono’. Está, na verdade, meio que imobilizada, mais por conta do colar-abajur que pelo fixador externo propriamente dito, e neste come-dorme sedentário, é absolutamente natural e esperado que lhe sobrevenha uma certa obesidade.

Mas a porca torce o rabo: qualquer um que assista aqueles documentários 'África selvagem' deve notar que os leões e demais felinos enormes têm uma pancinha, uma pequena dobra de pele flácida na parte baixa do abdome, que balouça para lá e para cá conforme deambulam. Os gatos gordos lá de casa – Heino e Ekken – têm tal barriguinha, e de fato ela é mole. Já Pipii apareceu com um abdome globoso e tenso, com mamas e mamilos protrusos. Aventou-se prontamente hipótese outra que mera gordura, e nem se pensou em ascite ou processos mórbidos correlatos. Parecia óbvio: Pipii, a gata confusa, estava grávida.

Quiseram prontamente culpar o Franz, único dos meus gatos com a aparelhagem necessária para completar a tarefa, mas a culpa, de fato, é minha. Não forniquei com a besta, antes que se me acusem, mas fiz algo equivalente: errei os cálculos a envolver a maturidade sexual dos dois gatos pecadores, e deixados ao deus-dará, eles pecaram. Hoje, com ultra-som feito, sei que são três gatinhos, e só me resta relaxar, gozar e arquitetar nomes esdrúxulos para a vindoura - e bizarra - progênie.


Just add water.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Desfasagens.

Bizarramente ou não, não morremos durante nossa excursão fluminense, mas dela retornamos e me encontro atolado em afazeres. Não apenas laborais ou pessoais, mas sobretudo animalescos - tenho muito me ocupado de três bichos que muito me dão trabalho: eu mesmo, Pipii e Barak. Isto faz com que eu escreva vários posts de uma só vez, mas acabe por não publicá-los, ou que os publique com atraso. Para isso, as poucas horas livres na firma servem-me pouco, pois a burrocracia vigente restringe o acesso a alguns domínios, blogspot por exemplo.

E findo o
dia, a internet tem me dado uma preguiça tamanha, que ao chegar em casa limito-me a ligar meu XBox e desligar minha mente... Mas doravante assumo o compromisso de, entre um zumbi morto e outro, voltar a disparar os valiosos bits de sabedoria e humildade que compõem este site.

Sunshine, lollypop...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Adeus, mundo cruel.

Solicita e amantíssimamente neste blogue me despeço de meus gatos, de meus amigos e parentes, grannie Wilson, de meus leitores, do meu cachorro Barak ben Kanaan Jr, de meus seletos diletos e infectos desafetos. Adeus André, boa sorte no novo CD, cuide bem da Mimi e da Laurita. So long and thanks for all the fish, auf wiedersehn goodbye, e só não me despeço de Juliana pois esta sofrerá o mesmo fim terrível e ora desconhecido que sofrerei em algum dado momento incluso nas duas próximas jornadas.

Esta noite, viajamos para o
Rio.

O fim está próximo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O passo do elefantinho.

Há em São Paulo mais um horrível shopping center, apenas inaugurado nas fronteiras da Barra Funda e da Pompéia. Nele há várias lojas boas e restaurantes idem, razões únicas que justifiquem uma visita, já que a frequência é obnóxia e desagradável: o supracitado estabelecimento divide muros com o imundo chiqueiro chamado Palestra Italia, o que faz com que bacons e torresmos ruidosamente invadam as galerias, deixando atrás de si um rastro asqueroso de detritos e cheiros ruins. Isto posto, prega o bom senso que um gavião como eu não vá ao Bourbon em dias de jogos ou comemorações suínas. Ei-nos lá então numa insuspeita segunda-feira à noite, há cerca de uma semana.

Acontece que naquele exato dia infeliz os corredores foram tomados por uma horda lenta e oleosa, vestida em roupas verdes a se arrastar na modorra pusilânime dos pseudópodes: numa loja de esportes do segundo piso havia noite de autógrafos de algum jogador do escrete porcino, o que fez com que leitões de todas as idades, cores e sexos se acumulassem por ali. Ao observá-los tantos, e tão de perto, chegamos a uma conclusão óbvia, porém necessária: todo palmeirense é gordo. Devo ter cruzado com uns cem, cento e cinquenta porquinhos naquela noite; destes, cerca de uma mera dúzia não tinham um índice de massa corpórea presumivelmente acima de vinte e cinco, trinta, ou além.

Lembrei-me então das falas do seo Manoel, personagem de Amácio Mazzaropi em O Corintiano, superprodução de 1966 na qual interpreta um barbeiro fanático pelo Corinthians. Numa cena ele tem que atender um freguês obeso, que expulsa prontamente da barbearia, a dizer, 'logo percebi pela sua barriga grande e o seu corpão que o senhor era palmeirense'. Além de dar-lhe toda a razão, ocorreu-me que o Parque Antarctica deve estar precisando de uma arquibancada nova, com pilares mais grossos. E portões mais largos.

O porco morre pela boca.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Enterro de anão.

De nada adiantaram os clamores por dignidade e igualdade proferidos pelos detratores dos antigos freak shows, que desde a época dos xifópagos Chang e Eng gritavam pela extinção dessas feiras de aberrações ao ar livre. Pois os freaks hoje se expõem por vontade própria, e mais ao ar livre que nunca, via internet; via YouTube. A repercussão internacional dos vídeos daquele anão chileno que se traveste de Amy Winehouse é prova disso, apesar de sempre esbarrar nas palavras 'bizarro' e 'grotesco': como no circo dos horrores de outrora, todos torcem o nariz mas ninguém deixa de olhar.

Questiona-se ainda a vocação deste tipo de mídia na gênese de instant celebrities: os vídeos e a cara do anão estão famosas; seu nome, não. Numa pesquisa mais ou menos rápida, achei várias notícias sobre ele e achei seus novos hits - La Pequeña Ingrid Betancourt, por exemplo. E nenhum outro detalhe qualquer, ainda que procurasse por enano ao invés de 'anão' ou 'midget'. Fiquei pensando que se ele não existir e for apenas uma alucinação coletiva, então alguém jogou um tóxico muito ruim na água da represa.
Me encanta la droga.

sábado, 26 de julho de 2008

Biro ao alvo.

Um equivalente corintiano à infame expressão 'toca Raul' seria, 'coloca o Biro Biro'. No Pacaembu, sempre que o jogo está meio quieto e morno, invariavelmente um gaiato (principalmente nas numeradas) se levanta e grita a famosa frase. Ao se sentar, olha furtivo de lado a outro, como se buscasse - e não encontrasse - cabeças em meneios a concordar ou rir com ele. Eu mesmo prefiro gritar palavrões impublicáveis, e quando resolvo protestar faço-o atrás do banco de reservas, como fiz em todos os jogos, por noventa minutos, contra o 'técnico' Emerson Leão.

Outra opção é ofender a torcida adversária, que fica ostracizada lá no fundo, ao lado das numeradas, sob vigilância policial constante. Alvos fáceis. De qualquer forma, deixo em paz a memória de Antonio José da Silva Filho, the Biro Biro. Ou deixava, até outro dia, em que levei Juliana para ver o
Timão asfaltar o Marília por cinco a zero com um jogador a menos e arbitragem contra. No final do intervalo, com os dois times já em campo, vejo subindo pelas escadas logo à nossa frente uma figura de cabelos miojo, que - para um míope sem lunetas como eu - parecia o Dee Snider.

Mas era ele; o homem, a lenda, o biro. O mesmo Biro que meteu por debaixo das pernas do Valdir Peres naquela final com o São Paulo. O mesmo Biro que, injustiçado, nunca se contaminou com a camiseta ictérica da CBF. Enfim, o mesmo Biro que meteu dois gols no mesmo Marília na minha primeira vez ao Pacaembu, dia 28 de novembro de 1982, meu segundo nascimento. Assim que o vi, subia meio cabisbaixo, quietinho, esperando não ser reconhecido e poder ver o jogo em paz lá das tribunas. Quase conseguiu; o árbitro estava por apitar e todos olhavam para o gramado.

Então levantei e gritei, 'Biro Biro! Vai lá jogar, seu louco!'. Crianças, velhos, adultos enfim notaram a ilustre presença, e foram para cima. Ele me olhou, suspirou e atendeu a todos, um por um. E deve ter pensado, 'são ossos do ofício'. Ou quem sabe, 'alemão fdp'.



Biro strikes back.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O gato-abajur.

Uma cúpula translúcida se arrasta pelos cantos da casa, e puxa atrás de si uma gata confusa - eis a esdrúxula e atual condição pós-cirúrgica da Pipii, operada anteontem. Foram-lhe rosqueados quatro parafusos metálicos no rádio e na ulna, todos por sua vez presos a um fixador externo de adamantium ou outra liga qualquer igualmente impressionante. Tudo foi coberto por quantidades generosas de algodão e gaze, a servir de coxins, e envolvido por uma vasta milhagem de atadura. Então aquela gatinha de um ano e dois quilos foi transformada em bizarríssima chimaera; híbrido de múmia, RoboCop e abajur.

Apesar de desconfortável para a criatura, isso me parece um detalhe perfunctório, ante os perigos reais e imediatos que nos rondam: osteomielite e insuficiência renal. O malabarismo aqui envolvido consiste em controlar uma eventual infecção com antibióticos profiláticos sem com isso fritar-lhe os rins, já que rim de gato é extremamente sensível e antibióticos, de maneira geral, são nefrotóxicos. Para coroar a situação, ela está aceitando mal a medicação via oral, e assim estou a espetá-la dioturnamente com seringas e agulhas, sempre com antissépticos ardidos e demais instrumentos de tortura.

A parte boa é que a pequena Frankenstein se alimenta bem, não sente dor e o local da cirurgia está limpo, clean as a whistle. Eu é que neuroticamente não durmo, pois ponho-me em pé para checar o status da gatinha a cada quarto de hora. À tarde, durante minhas horas de lida, faço o mesmo pelo telefone - ligo como louco para o day-hospital em que se transformou a casa da senhora minha mãe. No frigir final dos ovos, ela está indo muito bem - veterinários, parentes e os outros gatos insistem em dizer que não me preocupe, que vai dar tudo certo.

Sei disso, mas que não me digam nada: preocupo-me como paizão coruja, e não quero ouvir um pio.

For a strong recovery.

domingo, 20 de julho de 2008

Operação dragão.

Numa daquelas peripécias acrobáticas cujo sentido e cuja finalidade são secretos para todo o Universo, exceto para ela própria, Pipii, a gata confusa, quebrou o braço. Aliás, fraturou o 'membro torácico', como preferem seus veterinários. Foram feitas três chapas e um laudo, que olhei com exaustão. As chapas assustam: contei três fraturas e um descolamento de placa, embora o laudo tenha descrito a metade disso. Diante de tal cenário horrível, mandei as imagens porcamente scanneadas para médicos e veterinários nos quatro cantos da Terra.

E novamente não houve consenso, de modo que só saberemos amanhã, durante a cirurgia. Pipii (leia-se Pipi) está bem, sem dor alguma, inclusive galgando alturas que sua atual condição ortopédica e o bom senso comum impediriam - quem está morrendo de medo sou eu. Por mais rápido que seja o procedimento, parecer-me-á a operação mais lenta e monstruosa já feita.


Doeu em mim.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Para quem precisa?

Produzam quantas estatísticas quiserem, com gráficos-pizza ou infogramas, ponham o falastrão hirsuto do Jaborrr a gritar nos telejornais da Rede Bobo, mostrem imagens desfocadas dos pequenos crackheads na Sé ou na República - a verdade é que, em termos de violência urbana, o Rio de Janeiro continua lindo. Claro, além de campeões em todos os índices desagradáveis que já conhecíamos - número de vascaínos, escolas (?) de samba e petistas, ora desponta a gloriosa Guanabara com a polícia mais incompetente do mundo.

Descontem-se aqui algumas notórias peculiaridades, como o fato da instituição criminosa fluminense ser vista como negócio de família: um bicheiro sempre tem um primo no narcotráfico, um cunhado na Mangueira e um irmão no futebol. Refiro-me pois à bandidagem pequena, pé-de-chinelo, de rua; pela qual a polícia ainda não foi comprada e contra a qual ainda tenta agir. Quero crer que ajam
assim não por maldade pura e simples, mas por falta de preparo, habilidade ou mesmo discernimento - como um Chefe Wiggum da vida real, ruim e sem graça.


Gambé, unveiled.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Nem na China.

Estive esses dias no barbeiro, e enquanto esperava a maravilhosa confecção da minha tosa mensal, foi-me dada a folhear uma revista com o 'melhor das Olimpíadas'. Só então me dei conta de que este é um 'ano olímpico', e que os tais joguinhos estão de fato bem próximos. Ora, caso este blogue sobreviva por mais dois anos - 2010 tem Copa do Mundo - os senhores encontrarão por aqui resenhas, pormenores e curiosidades minuciosas sobre o maior jogo da terra, o futebol. Já as Olimpíadas me parecem um bizarro e enfadonho desfile internacional de hermafroditas; assim, seguirei ignorando.

Pois falho em achar graça em qualquer coisa que seja: as cerimônias de abertura ou encerramento são de um sonífero terrível e até os mascotes costumam ser horrorosos, como o atual. E os esportes, em sua maioria, são idiotas. Halterofilismo, peteca e pingue-pongue estão entre as apaixonantes modalidades sob a tutela do COI, como um dia estiveram o esqui aquático e o cabo-de-guerra. Palmas para eles, enquanto sigo não compreendendo essa ladainha sino-tibetana de 'amizade entre os povos' numa competição que já nos rendeu Adolf Hitler em 1936 e o massacre de 1972.

Há, no entanto, uma parte divertida, reconheço: trata-se da dificílima tarefa de se adivinhar o sexo dos competidores, nesse universo irreal onde machos, fêmeas e whatevers usam Lycra em cores vistosas. Olimpíadas são, enfim, um enorme disperdício de tempo e dinheiro, mas que me põe a pensar -

será que Rebeca Gusmão e Edinanci Silva dariam certo na zaga do Corinthians??


'Vou assistir pela Grobo', afirmou a nadadora anteontem.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Amigos invisíveis.

Uma diversão um tanto infantil e estúpida que encontrei recentemente, devo confessar, foi criar perfis fakes naquele curral que os periódicos sempre e aborrecidamente rotulam de 'site de relacionamentos', o Orcute. São dez personagens até agora, todos dedicados ao engenho e à arte de entrar em 'comunidades' e criar polêmica. Suzane von Richthofen, cujo descritor diz, 'sou inocente', é a campeã, seguida de perto por Isabella Nardoni e seu pai Alexandre. Paulo Maluf, Bátiman Negão, León de Tchácara e o infame guru Pootah Kipareel são sucessos menores.

A acidez impera, e o bom senso preconiza não se esperar que o teor dos comentários seja outro: isso causa uma enxurrada de scraps escritos em internetês que muito divertem e comprovam a máxima machadiana de como é bom ser superior aos insetos: 'AAAEEEEE sua vacaa Richetofem naum vai sai nunca da cadeiaaaaaa'. Sic. Alguns internerds, no entanto, surpreendem ao entender um ou outro detalhe mais sutil, como a foto de Josef Mengele no header de Alexandre Nardoni ou o Barão Vermelho no álbum da Suzane. Vez por outra, contudo, perco o bom humor.

Lembro-me então que quem ri por último são eles, os imbecis, a quem de fato pertence o mundo. É que numa somatória rápida, assim de cabeça, calculei que eles têm mais títulos de eleitor do que nós.

Meu amigo Power Guido.

sábado, 5 de julho de 2008

Lá vem o negão.

Joojoo não acredita, e no fundo, eu tampouco: Barack Obama não será o próximo presidente de Hollywoodland. Mas foi divertido acompanhar via Newsweek o eterno e infantil maniqueísmo através do qual os norte-americanos enxergam o mundo: enquanto houve o embate Obama-Clinton, falou-se em millennials contra boomers, Y contra X, como se fala de gregos contra troianos. Haviam esquecido que o negão e a ex-chifruda eram (são) do mesmo partido, mas agora que a segunda foi para escanteio retorna a dicotomia oficial, e por todos os lados vemos o burrico a enfrentar o elefante.

Fosse um daqueles filmes chatérrimos sobre processo eleitoral, que eles adoram, este seria prontamente taxado de inverossímil. Dir-se-ia, 'um negro e uma fêmea a disputar eleição presidencial contra um democrata gordito, ex-militar, careca e caipira? Nos EEUU?' Só faltou um candidato gay e um mexicano, e teríamos eleições patrocinadas pela Benetton, nos improváveis United Colours of America. Lembremos que Obama soa como 'Osama' e seu middle name é Hussein: do outro lado há um branquelo nervosinho a nutrir-se fartamente da soma de todos os medos num enorme país de cagões.


Logo é o medo, e não McCain, que irá derrotar Barack. Não é o mesmo medo sentido por Regina Duarte em 2002, mas algo mais intestino, primal e mesquinho: é um pavor que se dá na boca dos americanos desde a tenra idade da sopa de letrinhas, quando engolem, felizes, CBS, CNN, NRA, KKK. Talvez isso explique porque Sinatra era o preferido e Sammy Davis, o preterido: pouco ou nada adiantava o segundo ser um multi-instrumentista melhor em tudo, se era preto de mãe latina, judeu e caolho.

O American dream deve, enfim, ter blue eyes.

Great success??

terça-feira, 1 de julho de 2008

A most timely hello.

Sempre andando na contra-mão, nós do Elvis Lives in Evil Levis resolvemos tirar férias num dos momentos em que o blogue estava mais movimentado. Basicamente, fizemo-lo porque quisemo-lo, embora outras ocorrências tenham demandado nossa atenção premente: a camela e obtusa luta pelo frumento diário, o abandono irrevogável dos 'computadores' baseados em Windows, a infinita reforma de nossa nobilíssima mansarda. Há ainda a sempre presente Pequena Notável e uma nova e inesperada amizade, a demandar muito de meu tempo livre. Sobre tudo isto discorreremos, como tem sido feito há um ano e meio, tornando este veículo mais relevante e lido que a versão online do Boston Globe.

E disse Abravanel: aguardem.

- I can hardly wait.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Parenthood?

Revoltado que estou com a falta de hombridade no futebol atual, deparo-me com a seguinte notícia: o jogador Kaká anunciou que vai ter um filho, juntamente com sua juvenil esposa semi-virgem-evangélica. Resta-nos apenas a curiosidade científica de saber se ele será pai ou mãe do abjeto rebento.

Entre de carrinho... Mas por trás.

domingo, 25 de maio de 2008

Não vi e não gostei.

Li em algum lugar, jornal creio, que está por ser lançado um filme com as personagens do engraçadíssimo seriado Sex and the City. Segundo a fonte, o folhetim teria sido responsável pela "reinvenção da mulher moderna", embora eu ache que Pablo Picasso tenha feito isso há mais de cem anos, no Demoiselles d´Avignon. Mas se o periódico se referia às neuróticas pós-modernas sobrecarregadas de complexos ou frustrações, desprovidas de quaisquer relacionamentos reais - familiares, amorosos, amistosos - e com uma inegável porém enrustida tendência ao lesbianismo, aí sim, bingo.



E nem dá para tentar uma vingança, assisitindo a essa merda de maneira porca e chauvinista. Refiro-me aqui a achar as atrizes gostosas e torcer por cenas de sexo. Evento impossível: a protagonista parece um cavalo, a ruivinha parece um robô, a moreninha é cabeçuda que dói. Ah, e a outra é simplesmente velha, mesmo. Claro, não vou ver no cinema nem no cabo; se por ventura esse lixo estiver passando quando eu ligar o aparelho, mudo de canal.

Quase como já fazemos com Cazuza e Legião Urbana.


- You should read Carrie Bradshaw, my dear.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Arbeit macht frei.

Há pouco mais de duas semanas, comemoramos (?) o sexagésimo aniversário do Estado de Israel. Não entro aqui nos (de)méritos do sionismo, aquela política do 'sai daí turcada, agora Jerusalém é casa do Isaac', mas apenas levanto perguntas e supercílios para a inexatidão das balanças, com eventuais e subsequentes dois pesos e duas medidas.

A empresa onde trabalho, na nobilíssima Barra Funda, divide os muros com uma escola judaica. Isso em nada me incomoda, como não me incomodam os ridículos e exagerados esquemas de segurança adotados pelo educandário, uma espécie de Área 51 fora do Novo Mexico: dois portões eletrificados, com certeza à prova de balas, guarnecidos por três duplas de jagunços com coletes de kevlar que se distribuem entre anteparos de concreto, por sua vez dispostos em zigue-zague. A comparação que me veio à cabeça da primeira vez em que vi esse aparato todo foi tão desagradável quanto inevitável, mesmo porque eu estive lá: pareceu-me exatamente igual à entrada do campo de concentração em Dachau, na Bavária.

Flashbacks à parte, no tal dia do aniversário começamos a ouvir uma marchinha, para mim inédita, tão militar quanto previsível. E chata. Finda a melodia, iniciaram uma série de discursos, igualmente chatos e praticamente infinitos e que diziam basicamente as mesmas coisas. As poucas mudanças estavam nos timbres e nos sotaques: pude discernir com precisão uma jovem paulista, um vozeirão de meia-idade provavelmente israelense e um senhor bem idoso a embaralhar os fios do português e do ídiche. E repito, batiam todos na mesma tecla - tecla aliás bem martelada ao longo de todo o século ultimo, inclusive por circunspecto cidadão austríaco de pilificação facial bizarra, que tinha o supracitado povo hebreu em baixíssima estima.

Vejam só. O mestre-de-cerimônias abriu o falatório com um elogio à marcha e à disciplina dos aluninhos, que não 'quebraram a formação' e cumpriram o trajeto no exato tempo da execução da melodia. Insistiu muito, inclusive, na palavra 'ordem'... Jugend! Ordnung muß sein!! Os palestrantes, por sua vez, mantiveram a peteca no ar ao enaltecer a existência de 'um lar para nossos irmaos', e 'uma terra que seja só nossa', ou 'o derradeiro berço para nosso povo, o povo escolhido'... Meine Brüder, (dies ist) uns're Land; uns're Heimat! O último narrador, o velhinho ídiche, terminou por dizer algo como Israel ser 'a celebração da paz entre todos os povos'. Em que planeta ele vive eu não sei, mas ao menos tentou ser simpático.

Por mais que eu quisesse ficar ali a escutar a ladainha ufanista judaica, a quantidade de trabalho a ser feita terminou por me libertar, e dali removi meus infelizes e excluídos fundilhos gentios. Pensei apenas em quantos não seriam presos, julgados, processados, caso a escola fosse luterana e os discursos, no idioma de Goethe.

Kwik disclaimer... E por falar em alemão, os trechos dos parágrafos acima escritos neste idioma foram retirados ipsis litteris da propaganda daquele que se auto-entitulava 'o Guia', ou 'o Lider'. 


Ou der Führer, na língua dele.


- Same shit; different day.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Nomes de guerra.

Uma daquelas minúsculas pérolas de sabedoria que nos atingem quando menos esperamos acaba de me chegar aos ouvidos: Juliana relata-me a 'fórmula' postulada por um amigo seu (que muito do assunto entende) para descobrirmos o nosso nome de travesti. Isto é; caso tivessemos um. A tal matemática consiste em somarmos (1) o nome de nosso cachorro (ou token pet) ao (2) segundo nome de nossa rua. Minha pequena, por exemplo, atenderia por Charlotte Salvador, híbrido da Schnauzer senil com o Divino. E eu, do alto de meu 1.82m, detrás de olhos verdes e sob esta cabeleira amarela, responderia pelo sugestivo epíteto de Helga Veridiana.

Isto, claro; se são-paulino fosse.


- Até domingo, amiguinhos!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Super Reciclator Tabajara.

Latas de lixo não são objetos bonitos. Ou agradáveis. Prova disso são as históricas tentativas da humanidade em camuflar este utilíssimo coletor de dejetos dentre os demais componentes do mobiliário. Inclusive do mobiliário urbano - vide Londres e suas discretíssimas litters victorianas ou o Shopping Higienópolis, com os cestos escondidos sob um cachepô metido a Rennie Mackintosh. Em minha nobilíssima mansarda, a lixeira é historicamente cilíndrica, bem discreta, relegada ao cantinho mais recôndito da cozinha. Tem um pezinho para que eu acione a tampa e gatos xeretas não se aventurem a adrentá-la ou vapores xeretas não se aventurem a escapar-lhe. Mas, acima de tudo, é um item único.

Isto ponho pois na empresa em que trabalho as lixeiras pipocam aos quatro ventos e às quatro cores. 'Coleta seletiva', chama-se. Outrora invisíveis, em número também único (como ainda o é em minha cozinha), agora temos que conviver com quatro lixões plásticos, chumbados à meia altura para não escapar ao olhar e inda por cima pintadas de cores berrantes. Lembram-se daquele lixinho-cinzeirinho baixinho, que ficava aos cantos, quietinho, a cumprir sua ignóbil função? Isso é coisa do passado!!! Graças aos eco-chatos, as lixeiras - e seu conteúdo fétido, lamacento e nauseabundo - passaram a fazer parte de nossas paisagens visual e olfativa, privando-nos do livre-arbítrio inconsciente que tínhamos ao ignorá-las.

Partem do pressuposto que somos todos analfabetos e/ou oligofrênicos, pois não basta estampar a palavra 'plástico', têm ainda que colorir a maldita lixeira, como naquela infame casinha do telhado furado, lá da minha infância, onde se enfiava um cubo no orifício quadrado, um cilindro no furinho redondo, dando aos petizes os primeiros rudimentos do impedimento estérico. Não raras vezes, a coroar o paredão arco-íris de coletores, está uma estúpida plaquinha a conscientizar os cidadãos, ignorantes como eu acerca de 'quantos anos a natureza leva para decompor o vidro', ou o metal, ou a maldita prótese de quadril da senhora mãe do ecologista miserável que implantou aquela merda ali.

Cansado que estou deste achaque vil, vejo-me acometido de singularíssima condição, ao descartar minhas escórias nos coletores lá da firma. Em momentos muito peculiares, torno-me afásico, de modo que simplesmente não consigo ler o descritor que me informaria a que dejeto específico aquela lixeira se destinaria. Nesta mesma hora, vejam só, viro daltônico, e nada percebo das diversas multicores ali presentes.

Sou, nitidamente, um homem doente num mundo doente; parem portanto de me acusar de sabotador.

Suco de abacaxi reciclado.

domingo, 18 de maio de 2008

Brown sugar.

Dia desses acusaram-me verbalmente: falo muito sobre cocô neste espaço. Meus detratores se referiam à merda, mesmo - ou se preferirem, às fezes, ao troço, à obra, ou simplesmente a esse torpedinho marrom que se julga tão melhor que nós e diariamente insiste em deixar nosso corpo vil. Mea maxima culpa: já deixei links aqui que redirecionavam ao site da hidrocolonterapia, ao blog Holy Crap e recentemente comentei sobre minhas peripécias gasosas durante o Internato. Porém, sem medo de ser feliz, meto as mãos na massa novamente.

Acabo de receber a gloriosa notícia de que o Museu Literário de Himeji (não é cogumelo) inaugurou dia desses uma exposição dedicada... ao assunto. As crianças formam a maior parte do público visitante, e é sobre elas que recai o foco dos expositores: desejam ensinar aos pequenos jaspions a importância das fezes e seu lugar no mundo, estando para tanto disponíveis diversas amostras produzidas por várias espécies de animais - zebras, hipopótamos, macacos, elefantes, girafas, gorilas. As amostras são inclusive manipuláveis. Touch me, feel me...

Resta apenas saber se os expositores cumprem até o fim seu papel de educadores e induzem os espectadores à reflexão, informando-os com fotos, slideshows e modelos 3D das ilustres amostras que historicamente têm dirigido um certo país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza.

- Tem carnaval.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Whole lotta work.

E a vida segue, bandida: o Dell continua quebrado, eu continuo sem internet, sigo sem tempo e sem dinheiro. Mas tenho lenço, documento e perspectivas: fui esta semana ver o preço de um computador (leia-se Mequintoche) e planejo sua aquisiçao para o proximo mes. Enquanto isso, fico acumulando posts ineditos no meu pen-drive (que, claro, nao esta aqui) e escrevendo analfabeticamente nesta maquina ianque e sem acentos do meu better-half.

Dioturnamente ocupado, tenho trabalhado tanto, que se alguem na rua chamar por 'Kunta', eu juro que olho. Sera que assim eu consigo finalmente dominar o mundo?

- Quero minha mae.

domingo, 4 de maio de 2008

Achei o Padre Adelir!

Sim; é verdade: ele me ligou outro dia e disse que voou para um lugar bem longe, bem distante, onde ninguém está interessado nos meandros do caso Isabellinha ou sua opinião em relação a eles. Não quis, contudo, revelar pormenores de sua localização, visto que teme um influxo maciço de pessoas igualmente revoltadas para esse seu own private Terra do Nunca, o que faria com que perdesse seu sossego. Eu mesmo cogitei ir para lá, mas como o bom cura tem me negado as coordenadas, farei de outra forma - the ride without the traveling. Livrei-me de uma vez do último vínculo que eu mantinha com essa imprensinha marrom, falastrona e atrasada, e cancelei minha assinatura do jormal O Estado de São Paulo.

Não quero lê-lo mais pois perdi o respeito: é um tanto desagradável abrir um veículo 'sério' de informação e encontrar, como tenho feito nos últimos anos, updates do Big Bother ou entrevistas no suplemento Cultura com os 'autores' Sylvio de Abreu e Maria Adelaide Amaral. Não sabe quem são? Eu mesmo ignorei outrora, mas hoje sei que são mui importantes escritores de novela, verdadeiros luminares da teledramaturgia, que - como indestrutíveis bastiões da arte Thespian - são estimadíssimos do povo brasileiro. Pois é, aprendi no Estadão. E se ao limbo tenho relegado Datena, Jazadji, Caras e NP, faz apenas sentido que eu finalmente defenestre todo o resto da GNN, the Gutcha News Network.

Perguntou-me semana passada uma senhorita lá da firma: 'o que o senhor acha desse caso Nandoni (sic)'? Respondi de maneira seca, pouco curta e muito grossa: 'mal sei do que se trata. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Se o povinho gastasse toda essa energia e comoção na hora de votar ou cobrar os governantes, estaríamos gilhotinando o Lulla esta noite'.

Ou na pior das hipóteses, enxotando o Kassab.

- Limpa com jornal.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Holy shit, Batman!

Esbarrei dia destes neste site de peculiar sabedoria e interesse, e lembrei-me dos meus idos tempos de Interno do HC-FMUSP. Àquela época, dr Klein e eu muito sofremos em nosso camelo e obtuso diário de esculápios neófitos. Nosso parco repasto diurno, por exemplo, consistia em nos aventurarmos no insalubre 'refeitório' daquele nosocômio, onde infusões sulfurosas e colóides disformes eram erradamente rotulados como 'comida'. O hediondo grude, como é de se imaginar, provocava um insuflamento malcheiroso e malvindo do trato digestivo baixo. Segundo o ditado escocês better oot than in, tratava de aliviar-me dos metanos e propanos em silenciosas e longas emanações, assim que retornava à ala da cirurgia Gastro.

A parte bonita do evento é que nem enfermeiras, médicos ou os próprios aflitos percebiam que o infame poluidor era eu - culpavam ad promptum aquela numerosíssima quantidade de colostomias a céu aberto que repousava nos tais leitos. Ou certa feita, na enfermaria da Otorrinolaringologia, quando fui repreendido pela enfermeira ao falar do péssimo gosto em roupas de um determinado paciente. 'Ora dane-se; ele é surdo, mesmo', respondi - e ora cogito cobrar royalties do dr Gregory House.

No more chucrute.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A verdadeira Mary Poppins.

Todos cansamos de ver a reconstituição da polícia para o crime que não sai dos telejornais, e resolvo apresentar minha própria versão, num reenactment digital online. Como veículo informativo mais lido da internet, havendo recentemente superado o Boston Globe e o NYT, o Elvis Lives in Evil Levis contribui presentemente para esta nefanda investigação, com aquilo que muito parece faltar aos redatores e talking heads da Força Pública, dos judiciários da vida ou mesmo da imprensinha marrom: conteúdo, imaginação e humor. Negro, que sea.

Off she goes

Wanna fly away...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tax paying dummies.

Estamos todos chocadíssimos com a vil brutalidade com a qual defenestrou-se a menininha Isabellinha, vabbene. Agora, ficam as perguntas do otário aqui, que paga seus impostos e gostaria de ver dois pau e meio do dinheiro público ser melhor empregado: precisavam importar um crash test dummy da Alemanha, a preço exorbitante, para reconstituir o crime? Em que difere, no frigir final dos ovos, jogar do sexto andar uma relíquia Fabergé de ouro e diamantes ou um saquinho do Pão de Açúcar cheio de fezes dentro? A gravidade age diferente sobre bonecas alemãs? Se sim, não serviria apenas para reconstituir crimes contra... bonecas alemãs?

Mas o patético circo foi armado, com vários Rambos brasileiros da polícia civil todos montadinhos em seus modelitos pretos, com coletes à prova de tudo e armas de calibre estupidamente grosso - estariam tentando compensar por algo? Ao que, de novo, pergunto: se querem ser polícia, usar cabelo raspadinho e vestir uniforme, não deveriam ter entrado na PM? Mas enfim, são muito conscientes esses senhores detetives - agendaram o reenactment para a manhã de domingo, de modo que os 'jornalistas' do Fantástico tivessem tempo de sobra para editar a 'matéria', escolher fundo musical adequado e, desta forma, manter a população... informada.

Tem um palhaço querendo aparecer.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Não me abalo.

Alguém resolve flatular vigorosamente, a terra dá uma tremidinha e pronto! Imprensinha marrom via tevê e internet estão tratando do 'terremoto' de SP como se fosse Kobe ou a falha de San Andreas. Amanhã, tenho certeza, irão propor que se mude a Baixada Santista para as vizinhanças de Viña del Mar, a fim de que os gloriosos balneários paulistas façam também parte do Círculo de Fogo do Pacífico. Afinal, nada mais justo. Ultrapassamos cinco pontos na escala Ritchie, e creio ser o bastante para figurarmos entre os maiores desastres da Terra. E, em se tratando de Brazil, em breve teremos mais um feriado - 22 de abril, Dia do Terremoto, para aproveitar e fazer ponte com a vagabundagem de ontem.

E não percam o próximo Fanático, domingo que vem: assistam à entrevista ex-clu-si-va com o terremoto que abalou São Paulo, e saibam como o caso Isabella Nardoni influencia marés, colheitas e epicentros sísmicos.

Rua 25 de Março, segundo reportagem local.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Fred explica.

Enquanto não me laureio arquiteto e sigo a percorrer a camela e obtusa estrada do esculápio, forçam-me patrões, clientes e outras forças maiores a usar o desagradável avental branco. Ostento-o muito a contragosto, pois essa particular peça de indumentária se tornou um instrumento veiculador das vaidades e da empáfia dessa classezinha tão insegura, que precisa de hábito para ser monge. Visto-o então pelo menor tempo possível, e não tenho bordado o infalível 'DR' antes do meu nome. Do meu bolso se lê 'Fred Fomm - médico', period, dado que nunca defendi tese ou doutorado que o valha. Ao contrário do que querem crer meu diletíssimos colegas, a Medicina não é um sacerdócio, mas um simples emprego; um trabalhinho, dos mais sujismundos e desagradáveis.

Porém, ao habitar as cercanias da Santa Casa, cruzo diariamente com vários doutos a pavonear jalecos e estetoscópios para cima e para baixo. São sempre os mesmos, e a despeito de suas cútis gázeo-amareladas e seu deambular pusilânime, conseguem achar energia suficiente para desfilar soberbos em suas patéticas capas brancas. Tanto que nem me notam. Vou à locadora, e eis um idiota de avental a escolher filme, algo bem lugar-comum, tipo aquele negócio Da Vinci ou a trilogia Matrix. No supermercado vejo-os a catar alhos-bugalhos todos paramentadinhos. E nos bares e restaurantes também: sentam-se em roda, jaleco mode on, fumam cigarros e se alcoolizam. Como o dr. Julius Hibbert, o médico dos Simpsons, sempre caracterizado pelos tools of the trade.

Mal sabem eles que aquele alemão mal-encarado, de cinto de tachinhas, óculos de aviador e tatuagens pelos antebraços é um colega, caladamente a observá-los e reprovar suas condutas, que creio temperadas por alguma Penisneid ou Kastrationsangst. Freud explica: vejam só a altíssima prevalência de Audis A3 nas garagens destes profissionais.

Urologia-á... Eu quero uma pra viver!!!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Retalhações.

E vão armar o circo nos jornais de amanhã pelo fato do nobilíssimo doutor Farah Jorge Farah ter sido condenado a míseros treze anos de reclusão, aos que entrou com recurso a ser aguardado em liberdade. Para os mais jovens e para os de memória mais fraca, trata-se do médico que retalhou sua namorada (mais propriamente, paciente e amante) com vários kits cirúrgicos em janeiro de 2003, tendo ficado famoso após as fotos da obra haverem circulado via internet. Um crime bárbaro, sem dúvida, porém irreversível: nem que condenem, executem, retalhem o mister Hyde em questão a pobre coitada retornará, em pedaços, do além.

Nesse ínterim, aqui no aquém, legiões de perplexos oligofrênicos, mesmerizados pelas emissões malignas da Rede Bobo e afins, aglomeram-se nas portas de cadeias, delegacias e até nas casas dos suspeitos a gritar justícia!, justícia. A vítima do esquartejador segue morta, bem como seguirá morta e espatifada essa menina Isabella, independente do destino que se dê a seus pais. O povelho, preocupadíssimo com pormenores jurídicos e com bastidores inquiritórios, ignora o President Evil, que cancela CPI's e distribui cartões corporativos na calada da noite. E passa desapercebido, como os mesmos dizem.

Pois tendo eu passado as noites desta semana a assistir a primeira temporada da série Roma, da HBO, cheguei à conclusão eclesiástica de que nihil novi sub sole est. A desgraça alheia
continua a fornecer o circenses, enquanto os novos césares - ora déspotas sem dedos - fornecem panem travestidos de fomezero. E se for verdade, e todos os caminhos levarem a Roma, espero ansiosamente pela manhã de uns idos ou de umas calendas quaisquer, quando lerei no frontispício das Actæ, 'Aloysius Ignatius decido est'.

Arremessá-lo ao Coliseu seria querer demais; além disso, sinto pena dos leões.

- Esperem! Barbudo errado!!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A pata da gazela.

Como é meu costume notório num cotejo entre suínos e bambis, torci por violento empate sem gols com onze contusões sanguinárias de cada lado. Ontem, no entanto, tivemos um fato (creio) inédito na história do futebol: o primeiro gol de mão quebrada jamais validado por um juiz. Gols de mão já tivemos vários, mas nunca antes um com uma senhôura desmunhecada, o que faz a comparação de Adriano com Maradona ser injusta e inexata. Assisti o replay várias vezes, e ao ver aquele homem alto, negro, forte, de camiseta apertadinha calçado em rutilantes botinas vermelhas ser abraçado no chão por seus pares, pensei que o paralelo mais próximo seria, talvez, com Jorge Lafond - a.k.a. 'Vera Verão'.

Um anglófono dado a neologismos provavelmente diria que o 'Imperador' está outgaying o próprio Bicharlyson. Eis então que a dúvida permanece, e lanço a pergunta novamente: porque o arco-íris do São Bambi Futebol Clube tem apenas três cores??? Podiam adicionar mais uma e jogar, digamos, de quatro. A torcida, sem dúvida, aprovaria.

Xiii Bátiman... Esse cara é viado...

- Ah, eu tô maluca!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ajoelhou, tem que rezar.

O diarreico intelecto dos dignatários católicos purgou novamente: há umas duas semanas, todos lemos dos jornais os 'sete novos pecados do mundo moderno'. Contudo, ao contrário do que foi veiculado imprensa afora, não se trata dos novos pecados capitais. Em nota oficial, o Vaticânus disse que a confusão foi armada pois o jornal Osservatore Romano 'não entendeu bem' a mensagem transmitida pelo arcebispo Gianfranco Girotti, responsável pelo Tribunal da Penitenciária (?!) Apostólica da Curia Romana, em entrevista àquele jornal. De qualquer forma, estão arroladas mais sete práticas consideradas pecaminosas pela Igreja. A lista faz rir para não chorar:

1 - Poluição ambiental,
2 - manipulação genética,
3 - acumulação de riqueza excessiva,
4 - geração de pobreza,
5 - consumo e tráfico de drogas,
6 - experimentos moralmente discutíveis, e por fim
7 - violação de direitos fundamentais da natureza humana.

Como disse Índio Cléverson, 'engraçado prááá caramba'. Reparem nos pecados descritos na terceira, na quarta e na sétima linhas. É uma ironia nem um pouco fina, vinda de uma das mais nababescas instituições financeiras ever, ao mesmo tempo potência imobiliária e máquina de assassínio - vide Cruzadas, Medievo, Inquisição. Faz-nos crer que não apenas revolucionando a legislação pecaminosa, o tal Tribunale está ainda revogando a História e talvez, a Lei da Gravitação Universal: querem que ignoremos o fato de que, quando alguém cospe para cima, cai-se-lhe o cuspe na cara.


Vinde a mim as criancinhas.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Paranóides.

Meus queridíssimos e inteligentíssimos vizinhos aprontam cada uma... Há uns três anos, entregadores de pizza, supermercado, farmácia ou padaria foram peremptoriamente proibidos de ganhar acesso às portas dos apartamentos do edifício onde moro. Depois das sete, claro - meus diletíssimos co-condôminos sabem perfeitamente que nin-guém é roubado antes desse horário. E após este, o imbec-, digo, o consumidor que diletantemente solicitou o despacho de sua refeição noturna terá de buscá-la na calçada. Ou ao menos era o que eu pensava, já que há uns três anos coincidentemente não peço nada em lugar nenhum.

Cheguei dia destes umas dez da noite e me deparei com um motoboy no lobby social do prédio. Diminuí o passo e observei: de dentro do elevador saiu um morador, de chinelas, com dez real em mãos para pagar seu hamburguer. A única barreira a separar o entregador-suspeito de nossas almejadíssimas moradas era uma porta de vidro, ora naturalmente aberta, pois o queridíssimo e inteligentíssimo vizinho tem de coletar seu repasto. Não há câmeras ou vigilância para monitorar a atividade, e o tal lobby fica bem distante da calçada ou do porteiro, aparentemente convidando o elemento sateador à confecção de terríveis atos ilícitos.

Num breve inquérito junto ao senhor zelador - provavelmente a pessoa mais inteligente e educada daquele hospício - descobri que um dos autores do 'projeto de lei' foi exatamente um dos moradores mais antigos, que bem sabe que jamais nos quarenta anos do condomínio houve assalto ou tentativa de por parte de qualquer prestador de serviço. E deve se lembrar ainda de que o último crime ocorrido em nossos premises foi o furto de um autorrádio RoadStar, em 1987. Mas claro: ele sempre pode voltar...

Na próxima reunião com o síndico vou sugerir a compra de dois tanques Sherman, oito mísseis terra-ar e a contratação de uns vinte mercenários líbios veteranos do Afeganistão. Tudo, claro, com uplink e live feed para os Marines, para o FBI, a CIA e a NSA - o seguro, afinal, morreu de velho.


Modern life is rubbish.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Dell pau.

Agradeço publicamente à Dell Computers do Brasil pelo recente crash mais uma vez sofrido pelo meu laptop. Por mais paradoxal que pareça, fiquei muito feliz por tal evento simplesmente ter fechado vez por todas o caixão do Windows e de demais porcarias made in Billgates. E foi com chave de ouro - há três dias recebi, por email, uma 'pesquisa de satisfação' da supracitada companhia. O que eu escrevi lá serve de aviso aqui: fujam. A Dell é extremamente competente e atenciosa quando quer vender uma máquina, mas manda-nos às fezes quando precisamos de manutenção para a mesma. Fui inclusive acusado de 'alterar minha máquina', o que segundo a oligofrênica Ellen (não forneceu sobrenome, claro) seria a causa da 'desconfiguração' do Windows.

Creio que a asinina se refira a esta terrível mania que tenho - instalar programas, gerar arquivos e enfim, usar o computador. Parece-me que, como cliente da Dell Computers do Brasil meu direito único, pessoal e intransferível é o mesmo de contribuinte da União: pagar-pagar-pagar, sem nada receber. A diferença: dos impostos não me livro, já da Dell Computers do Brasil...

Um grande passo para a humanidade.

domingo, 30 de março de 2008

Domingo ilegal.

E dane-se (dane-me) que tenho que trabalhar a semana inteira e tiro o domingo para cochilar, pois afinal, o louvor a fantasmas sacrossantos é mais importante que o repouso dos mortais. Refiro-me a uma estúpida e ectópica procissão que acaba de passar-me pela rua. Não sei nem quero saber se hoje foi algum feriado católico idiota (oh, redundância), mas algumas questões concernentes ao séquito permanecem. Por exemplo, o pedóf... digo, padre, montado em cima da carrinha rudimentar a berrar de microfone em mãos, fazia-o em volume grotescamente alto: se existisse, Deus seria surdo? 'Cantava' uma canção que dizia 'eu vim para que todos tenham vi-daaaaaaa', cujos lyrics consistiam em repetir esta tal frase umas cinco mil vezes, para que o rebanhos de oligofrênicos pudesse, chissà, entender.

E o verme 'cantava' um maldito meio-tom abaixo do bom-senso, e uns cem decibéis acima.
A procissão, a serpentear como um famélico parasita de gigantescas proporções, repetia mais meio-tom abaixo e mais cem decibéis acima. E lá se foi o derradeiro ovo que repousava em meu refrigerador, a espera de ser frito, cozido, mexido, ou como é de meu costume, comido cru. Esperaças vãs do pobre fruto galináceo, pois peguei do tal gameta encapsulado, fiz mira míope e arremessei-o mais ou menos em direção ao som. Fechei a janela rapidamente, enquanto o bólido ainda singrava a vastidão do espaço, pois ficar olhando é pedir para ser incriminado. Relatei o evento a outrem, e fui acusado: 'você não respeita a fé dos outros'. Vabbene; evvero - mas por acaso os tais fiéis respeitaram minha narcose???

Ademais, não apenas os ovos, mas também o som se propaga pelo espaço, e como sabiamente disse meu sábio amigo Bukhowski, 'eles não são donos do ar'.

Non esageriamo.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Speechless.

Como é notoriamente sabido, detesto o efeito causado por frases prontas e 'ditos populares'. Um que me sempre me aborreceu sobremaneira é aquela ladainha de uma imagem valer 'mais que mil palavras'. Acredito no oposto diametral; de que uma palavra - em sendo uma justa - vale mais que mil imagens. Por isso talvez sempre tenha preferido livros e revistas a filmes ou (argh!) TV. A fraseota, no entanto, cruzou-me a mente dia destes, ao retornar do centrão e deparar-me com o dormente retratado na foto abaixo. Graças a essas camerinhas digitais japas, pode-se rapida e sub-repticiamente sacar uma foto sem que o modelo perceba o click - que, aliás, se transformou num efeito sonoro removivel.

Quero meu Pulitzer.

domingo, 23 de março de 2008

Peixes grandes.

Era uma bela noite de outono, e refastelávamo-nos em pequena tasca sita próxima às cercanias da USP, portanto próxima também da saída de Osasco. Eis que sem maior aviso começam a inquietar-se todos os demais presentes, que se levantam e se sentam todos lado a lado, como num front de batalha, numa Linha Maginot do mal. Miravam atentamente qualquer coisa às minhas costas, e levei um certo tempo até perceber que o foco deles eram os televisores e o telão. Já atingi um nível tão grande de repulsa a esses aparelhos que, ao adentrar qualquer recinto, sento-me involuntariamente de costas para eles. Eis porque minha ficha não caiu como que de imediato, e fiquei um bom meio minuto a tentar perceber o que se passava.

Pois bem; eu do alto da minha cerveja e Joo detrás de seu sundae, observávamos curiosos as expressões perplexas, os queixos caídos e a lagoa de saliva que se formava sob nossos pés: estava no ar o Big Bother, pilotado pelo ex-repórter, ex-galã e (ex-?)cocainômano Pedro Bial. Os olhares dos telespectadores eram tão vácuos quanto os olhares dos abadejos, dos arenques e das tainhas em exposição nas feiras livres. Miradas baças e foscas que pareciam ficar cada vez mais turvas, pois os portadores dos olhos em questão relutavam em piscar, a fazer com que suas córneas se desidratassem ainda mais. Podíamos inclusive ter levantado e saído sem pagar, visto que os garçons, o dono da bodega e até o flanelinha estavam em transe.

Eterna vítima do dualismo, de início singrou-me a mente a máxima machadiana, e cheguei à conclusão que, de fato; é bom ser superior às borboletas. Porém o lado B dessa ladainha toda é que a animália ali presente era formada por unidades portadoras de título de eleitor, obrigados por lei a comparecer às urnas quase todo fim-de-ano. Numa somatória rápida, calculei que o QI de todos os participantes, apresentadores, telespectadores; todos os envolvidos enfim naquele programa de televisão não ultrapassará jamais dois algarismos. Quantos destes saberão quem é Goldstein, de onde vem e por que foi escolhida a expressão Big Brother? Será a reeleição do Lulla um orwellian state of affairs?

Juro por todos os Avatares - por Shiva, Ahriman, pelos duendes, pelo Yin e pelos trasgos, juro por todas as divindades malfazejas - tentei prestar alguma atenção à atração em questão para que pudesse escrever aqui qualquer coisa que lhe fosse concernente, mas não logrei fazê-lo. Minha reação foi quase anafilática.


- Filho, muita tevê vai te deixar cego.